quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Tragédia com data marcada

Foto: Terra

Tanto quanto um show de final de ano do Roberto Carlos, todos nós brasileiros sabemos que tem enchentes em janeiro.  E não raro grandes tragédias.  Santa Catarina há 2 anos, Angra dos Reis ano passado, e agora a região serrana do estado do Rio.  Essas duas últimas não atingiram apenas os menos favorecidos das encostas, como é mais habitual.  Bairros inteiros foram devastados.  E já se contabiliza mais de 420 mortos.

No caso de Nova Friburgo, houve uma tromba d’água como nunca visto.  Acontece que uma obra iniciada em 1996, no rio que corta a cidade, sabe-se lá porque, até hoje não foi concluída.  E agravou ainda mais a situação.

Em São Paulo, o estrago foi um pouco menor, mas além de danos materiais, também há pessoas mortas e desaparecidas.


Foto: UOL


E a piada de ontem, não fosse trágico, veio do Governador Alckmin quando disse “Obras contra enchente não ficam prontas em 24h”.  Ora Sr. Alckmin, o seu partido está no poder em São Paulo há pelo menos 20 anos, incluindo mandatos seus!  E já há algum tempo tem na prefeitura da capital um aliado político do DEM. Será que 20 anos não são suficientes para obras contra enchentes?  Só os questionáveis piscinões? 

Agora ouvimos governadores, prefeitos e a presidente dizendo que recursos serão liberados para investimentos nas obras necessárias.  E aluguel social, cesta básica, liberação de FGTS.  Fica mais caro socorrer do que prevenir.  É óbvio isso.  Sem falar que a não prevenção custa a vida de centenas de pessoas anualmente.  Isso a esmola pública não resolve.

Não bastasse, tem a burocracia de sempre.  Hoje descobri que a verba federal para socorrer Angra dos Reis só caiu na conta da prefeitura no mês passado.  Um ano depois.  E mesmo assim, R$ 50 dos R$ 80 milhões prometidos.

A grande verdade, meus caros, é que obras de prevenção não são interessantes sob o ponto de vista político.  Tragédia consumada, é muito legal ver os políticos sobrevoando a região, dando entrevista, abraçando e confortando os sobreviventes.  Mas chegar lá num dia de sol, com céu azul, e dizer para aqueles pobres coitados que a o poder público vai desalojá-los das encostas, isso nenhum prefeito e governador quer ou faz.


Buemba! Começou o Big Bagaça Brasil, o realityputaria!


Fonte: UOL

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Poeta e Poema

De
Tanto
Procurar
Pela
Palavra
Perfeita,
Pela
Rima
Bem
Feita,
O
Poema
Se
Perdeu.
Foi
Descendo
Até
Esgotar
A
Pauta.


De
Tanto
Procurar
Pela
Mulher
(Palavra)
Ideal,
Bonita
E
Eclética,
O
Poeta
Se
Esvaiu
No
Vazio
Da
Estética.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

O avião, a elite e as classes C e D



Definitivamente, o Brasil ainda é um país para poucos.  Não tem Brasil para todos os brasileiros.  E não há exemplo melhor do que o transporte aéreo para comprovar esta tese.

Durante décadas, viajar de avião era um glamour, um privilégio de uma minoria.  Viagens internacionais então, nem se fala.

Éramos bem tratados, desde o check-in, passando pelas refeições servidas a bordo, com o requinte de talheres em aço inox e até prata.  Mesmo em voos domésticos e de curta duração.

Há dez anos começaram a surgir empresas low cost low fare.  Com elas, a simplificação dos processos e a substituição das refeições mais elaboradas por barrinhas de cereal e pacotinhos de biscoito. Hoje em dia, nem isso.  Já tem empresas cobrando pela bebida e pelo lanche.

Custos menores, tarifas menores.  Com isso, um número maior de pessoas passou a utilizar o transporte aéreo.

No mesmo período o país saiu de quase duas décadas de estagnação e voltou a crescer.  Economia aquecida, aumento de renda, mais brasileiros nas filas de embarque.  O caos tinha data marcada para acontecer.  Afinal, nesses dez anos pouco ou nada foi feito para atender o crescimento da demanda.  Os aeroportos são exatamente os mesmos.

O resultado todos nós conhecemos.  Além dos problemas que já existiam, como a prática do over book, temos aeroportos super lotados, voos cancelados, atrasos, protestos, tripulação exaurida, xingamentos, depredações e maus tratos da parte de atendentes despreparados.

Bom, até aí, não vejo nada de estranho.  Pelo contrário, era previsível e até inevitável.  Impossível resolver simultaneamente todos os problemas do país.  Miséria e fome, infraestrutura, educação, saúde, segurança pública...  Abrindo um parêntese, é louvável que nesses últimos anos tenhamos evitado que milhões de brasileiros morressem de fome.  E embora eu não seja a Madre Tereza de Calcutá, penso nisso quando tenho de embarcar em um terminal lotado.

Mas o que mais me incomoda nessa história toda é ver uma meia dúzia de idiotas esbravejando contra o fato das classes C e D utilizarem o avião como meio de transporte.  Já ouvi coisas tão absurdas que tenho vergonha de escrever aqui.

É bem verdade que falta “bons modos” para essas pessoas que estão chegando agora. Natural, pois em função de terem sido mantidos à margem do "paraíso consumista", não têm hoje a menor familiaridade com o transporte aéreo.  Não sabem como se portar no momento do embarque.  Têm medo do Raio X.  E, pasmem, tem gente que sequer usa o banheiro por não saber abrir a porta.

Teremos de conviver com essa situação por algum tempo ainda.  Felizmente, vejo crianças pequenas nesse meio.  Logo elas crescerão, e diferente de seus pais, saberão muito bem ocupar os seus lugares e apertar os cintos.

E quanto à elite, só lamento.  Mais do que nunca, é preciso que ela também aperte o seu cinto. Mesmo que seja no pescoço.

Quem tiver muito dinheiro, compre um avião.  Quem tiver um pouco menos, alugue um táxi aéreo.  Para os demais, este é o país que temos agora.

domingo, 9 de janeiro de 2011

A vida no ritmo dos passos


Gosto de andar a pé.  Ainda que percorrendo caminhos repetidos, tenho a oportunidade de observar melhor o cotidiano, as pessoas, e até as cores que se alteram conforme a luz do dia.

A rua é a mesma.  As casas e prédios, idem.  Mas a sua dinâmica é diferente a cada nascer do sol.  A rua tem vida própria.

O bar da esquina tem a mesma configuração de sempre, mas quando passo por ele é possível observar algo novo.  Até aquele executivo de terno escuro, que habitualmente toma a sua cerveja, na mesma cadeira da mesma mesa, é diferente.  Observo rapidamente o seu semblante e vejo uma expressão nova a cada vez.  Sei que um dia está mais feliz, outro nem tanto. Por vezes, um ar de preocupação.

A banca de frutas há anos montada sob a marquise do prédio, na mesma esquina, pelo mesmo vendedor.  Nada mudou nesse tempo, sequer o plástico azul que a protege da chuva com vento.  Mas é fácil notar que a banana está mais madura, que uma fruta de época é vendida a preços menores ou em quantidade maior.

A senhora de idade já avançada, pequena, magrinha, lenço na cabeça, olhos pesadamente pintados, e sobrancelhas onde a ausência dos pêlos é compensada por um lápis preto.  Exatamente igual.  Todos os dias.  Mas me desperta reações diferentes.  Teria sido ela uma artista?  Atriz ou cantora?  Por vezes penso que é uma mulher só, sem filhos ou companheiro, alguém que pudesse dizer a ela que não há necessidade de se pintar assim tão exageradamente.  Que a beleza roubada pelo tempo não tira dela o prazer de estar viva, de ter envelhecido.

O vizinho de meia idade que se veste invariavelmente em tons cáqui, bermuda e camiseta, botinhas em couro camurça e uma bolsa a tira-colo.  Vê-lo, é como mirar a mesma foto.  Mas um dia me cumprimenta, outro não.  Um dia me para pra dizer que me convidará para fazer uma palestra no seu curso de História.  No outro passa direto por mim, como se não me conhecesse.

Os meninos e meninas do colégio.  Cresceram.  Viraram adolescentes.  Usam celulares.  Roubam um beijo apoiados no carro estacionado.  Ainda ontem eu os via sendo levados pelas mãos da mãe até o portão de entrada.  Hoje passaram do banco de trás para o da frente e descem com seus casacos amarrados na cintura.

A vida pode ser diferente quando observada no ritmo dos passos.  Experimente.  Com um olhar atento você se deliciará com o novo, identificado na aparente mesmice de sempre.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Poesia

Não sou poeta.  Eventualmente escrevo alguns versos.  Faço uso da pouca inspiração como uma forma de conviver com as minhas emoções.  Quase tudo que escrevi e escrevo, advém das grandes paixões.

Poesia não se explica.  Quem a escreve sabe de seus motivos.  Quem a lê, se fonte não for de tal inspiração, pode e deve admirá-la.  Se não pelo conteúdo, ainda sobram beleza e estética.

Encontros matinais

Há dias
Tardes e noites se repetem
Monótonas, paraíso sem maçãs

Há dias
Tardes e noites
Me remetem
Ansioso, ao encontro das manhãs

Para Anna Christina, a quem eu via apenas pela manhã.



Desce, irmão!

Quem nasceu e viveu no interior, especialmente os mais antigos, conhece bem aquelas crenças populares, do tipo: não imite um gago porque se bater um vento forte você também ficará; não envesgue os olhos, se não, idem;  não tome banho de barriga cheia;  não brinque com espírito e;  por aí vai.  E sobre espírito, tem a famosa frase “Desce, irmão!”.

Morávamos numa chácara no interior de São Paulo, onde tínhamos uma granja.  De um lado os galpões alinhados paralelamente, no centro a nossa casa e do outro lado, à frente dos galpões, uma construção que servia de depósito para ração e ovos. 

Um dos meus irmãos e eu tínhamos o hábito de brincar com uma pequena bola de meia no terreiro à frente do depósito.  Bola de meia, como o nome já diz, é feita com retalhos de tecido embolados e revestidos por um pé de meia.  Por isso mesmo, pesa bem pouco, principalmente aquela nossa, de tamanho bem reduzido.

Lá estávamos nós a brincar.  Fazíamos embaixadas, chutávamos um para o outro e também, de vez em quando, jogávamos a bola sobre o telhado e enquanto esperávamos pelo seu retorno gritávamos: desce, irmão!  Obviamente, ela sempre descia.

Mas naquela tarde, algo diferente aconteceu.  Alguém havia colocado uma barra de cano de metal, com 5 ou 6 metros de comprimento.  Pesava um bocado.  Ela estava em pé e apoiada sobre a primeira fileira de telhas. E eu, todo faceiro, de cima dos meus 7 anos de idade, joguei a bola sobre o telhado e me pus bem próximo a esperar pela sua volta.

Desce, irmão, gritei!  E desceu.  Desceu, bateu no cano e o cano também desceu...  Bem no meio da minha cabeça!  Tudo muito rápido!

Assustado e com dor, demorei alguns segundos para perceber o que havia ocorrido.  Dá para imaginar que uma bolinha de meia muito leve, um pouco maior do que uma laranja, derrubaria uma barra de cano muito pesada?  Terá sido a mão de um “irmão” já aborrecido com a brincadeira?  (rsrs)

O fato é que de lá pra cá, só pronuncio “Desce, irmão” quando um dos meus está numa escada, numa cadeira ou coisa parecida.